EU VOU CUSPIR NO
CHÃO
Essa expressão talvez não
seja muito conhecida por muitos. Certa vez, minha mãe mandou-me ao frigorífico
do japonês Zakael Mishina para comprar um quilo de albacora, um peixe de água
salgada. Ela disse que ia cuspir no chão e eu saí apavorado. No frigorífico,
encontrei uma fila enorme. Fiquei apavorado e tentei convencer as pessoas para
deixar-me ser atendido primeiro.
Por mais que eu implorasse,
as pessoas olhavam para mim e diziam: “sai pra lá, pivete! Pega o fim da fila!”
Foi quando eu resolvi “abrir o jogo” falando entre soluços e lágrimas: “Moço,
por favor, minha mãe cuspiu no chão!”. A gargalhada foi geral. Foi quando eu
completei: “Ela cuspiu no chão e se eu chegar depois que o cuspe secar, ela me
castiga!”.
“Vou cuspir no chão” não se
tratava de uma falta de educação ou de uma nojeira, mas de uma “ameaça” feita
pelas mães aos filhos, quando os mandavam cumprir algumas tarefas e queriam que
eles chegassem sem demora. As mães cuspiam no chão e se ao chegar o filho, o
cuspe tivesse secado, o castigo era imperdoável.
Quando eu ouvia minha mãe
dizer “vou cuspir no chão” eu ficava arrepiado e chegava a suar frio. Na minha
casa não tinha “conselho tutelar”, e sim “conselho costelar”, ou seja, era
cinturão nas costelas e ai daquele que se metesse como protetor do “infrator”.
Com certeza saía machucado.
Mas às vezes, cometemos
deslizes que poderiam ser evitados. Eu saíra de casa para compra carne no
açougue. Minha mãe fez uma lembrança ameaçadora: Olhe que essa carne é pro
almoço e eu vou cuspir no chão, está ouvindo? Eu disse que sim com um movimento
de cabeça e lá fui eu em direção ao açougue.
Depois de comprar a carne,
passei pela casa do amigo Mailton, que me convidou para conhecer um presente
que o pai havia comprado para ele. Eram dois revólveres de plástico e uma
cartucheira. Na época, uma das nossas brincadeiras preferidas era bang-bang,
imitando os artistas como Roy Roger, Rock Lane e outros do faroeste americano.
Fiquei tão empolgado que esqueci o cuspe de minha mãe.
Ouvi um carro parar na porta
e fiquei sabendo que era o pai do Mailton que chegava para o almoço. Êpa!!!
Almoço??? Perguntei espantado. Ele respondeu: “Sim! Já está na hora do almoço.
Foi aí que lembrei que minha mãe havia dito que a carne era para o almoço e que
iria cuspir no chão. Estou frito, pensei lá com os meus botões. E estava mesmo!
Cheguei em casa um pouquinho antes de meu pai. O pior é que nem havia mas marca
do cuspe de minha mãe. Precisa dizer o resultado???
Numa conversa com amigos, eu
falava dos costumes nos anos 50 e 60. Era a época em que as famílias eram
respeitadas. Os filhos só tiravam a barba com ordem do pai. As músicas tinham
melodia e letras que contavam uma história emocionante de amor. Quando eu falei
do “cuspir no chão”, eles riram e disseram: “Hoje se cospe na cara do outro”.
Certa vez eu perguntei ao
meu pai por que os homens do passado gostavam de grandes bigodes. Ele disse que
era a maior identidade do cidadão. As pessoas eram respeitadas pelo bigode. Mas,
segundo ele, era um respeito merecido, pois os pais se esforçavam para deixar
como heranças para os filhos, disciplina, respeito e honestidade.
Mas as coisas mudaram,
chegando ao ridículo do Estado interferir nas famílias e os lares deixaram de
ser administrados pelos maridos e pelas esposas.
Direitos Humanos e Conselhos
Tutelares entraram nos lares como intrusos, sem serem convidados. São arrogantes
e prepotentes. Não resolvem os problemas financeiros das famílias, mas se acham
no direito de mandar no patrimônio alheio.
(Por Adalberto Pereira)
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