segunda-feira, 10 de junho de 2019


                                        EU VOU CUSPIR NO CHÃO 

Essa expressão talvez não seja muito conhecida por muitos. Certa vez, minha mãe mandou-me ao frigorífico do japonês Zakael Mishina para comprar um quilo de albacora, um peixe de água salgada. Ela disse que ia cuspir no chão e eu saí apavorado. No frigorífico, encontrei uma fila enorme. Fiquei apavorado e tentei convencer as pessoas para deixar-me ser atendido primeiro.
Por mais que eu implorasse, as pessoas olhavam para mim e diziam: “sai pra lá, pivete! Pega o fim da fila!” Foi quando eu resolvi “abrir o jogo” falando entre soluços e lágrimas: “Moço, por favor, minha mãe cuspiu no chão!”. A gargalhada foi geral. Foi quando eu completei: “Ela cuspiu no chão e se eu chegar depois que o cuspe secar, ela me castiga!”.
“Vou cuspir no chão” não se tratava de uma falta de educação ou de uma nojeira, mas de uma “ameaça” feita pelas mães aos filhos, quando os mandavam cumprir algumas tarefas e queriam que eles chegassem sem demora. As mães cuspiam no chão e se ao chegar o filho, o cuspe tivesse secado, o castigo era imperdoável.
Quando eu ouvia minha mãe dizer “vou cuspir no chão” eu ficava arrepiado e chegava a suar frio. Na minha casa não tinha “conselho tutelar”, e sim “conselho costelar”, ou seja, era cinturão nas costelas e ai daquele que se metesse como protetor do “infrator”. Com certeza saía machucado.
Mas às vezes, cometemos deslizes que poderiam ser evitados. Eu saíra de casa para compra carne no açougue. Minha mãe fez uma lembrança ameaçadora: Olhe que essa carne é pro almoço e eu vou cuspir no chão, está ouvindo? Eu disse que sim com um movimento de cabeça e lá fui eu em direção ao açougue.
Depois de comprar a carne, passei pela casa do amigo Mailton, que me convidou para conhecer um presente que o pai havia comprado para ele. Eram dois revólveres de plástico e uma cartucheira. Na época, uma das nossas brincadeiras preferidas era bang-bang, imitando os artistas como Roy Roger, Rock Lane e outros do faroeste americano. Fiquei tão empolgado que esqueci o cuspe de minha mãe.
Ouvi um carro parar na porta e fiquei sabendo que era o pai do Mailton que chegava para o almoço. Êpa!!! Almoço??? Perguntei espantado. Ele respondeu: “Sim! Já está na hora do almoço. Foi aí que lembrei que minha mãe havia dito que a carne era para o almoço e que iria cuspir no chão. Estou frito, pensei lá com os meus botões. E estava mesmo! Cheguei em casa um pouquinho antes de meu pai. O pior é que nem havia mas marca do cuspe de minha mãe. Precisa dizer o resultado???
Numa conversa com amigos, eu falava dos costumes nos anos 50 e 60. Era a época em que as famílias eram respeitadas. Os filhos só tiravam a barba com ordem do pai. As músicas tinham melodia e letras que contavam uma história emocionante de amor. Quando eu falei do “cuspir no chão”, eles riram e disseram: “Hoje se cospe na cara do outro”.
Certa vez eu perguntei ao meu pai por que os homens do passado gostavam de grandes bigodes. Ele disse que era a maior identidade do cidadão. As pessoas eram respeitadas pelo bigode. Mas, segundo ele, era um respeito merecido, pois os pais se esforçavam para deixar como heranças para os filhos, disciplina, respeito e honestidade.
Mas as coisas mudaram, chegando ao ridículo do Estado interferir nas famílias e os lares deixaram de ser administrados pelos maridos e pelas esposas.
Direitos Humanos e Conselhos Tutelares entraram nos lares como intrusos, sem serem convidados. São arrogantes e prepotentes. Não resolvem os problemas financeiros das famílias, mas se acham no direito de mandar no patrimônio alheio.

(Por Adalberto Pereira)

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