sábado, 11 de abril de 2020

HISTÓRIAS QUE MEU PAI ME CONTAVA - 3


A CIDADE DO VAI-NÃO-TORNA

03 – Havia uma cidade onde as pessoas viviam muito bem e todos desfrutavam de grandes riquezas. Era normal alguém fazer viagens em busca de aventuras nas montanhas encantadas, como muitos chamavam pela sua beleza e seus segredos históricos.

Mas para chegar àquelas montanhas os viajantes eram obrigados a passarem por uma cidade onde havia uma única hospedaria. Diziam que a proprietária do repouso dos viajantes, como era assim chamada, era uma velha bruxa, que só fazia o mal.

Para fazer a viagem até as montanhas, era preciso um bom cavalo, um cachorro esperto e uma lança resistente para o caso de aparecer algum animal que colocasse em risco a vida do aventureiro viajante.

Havia um cidadão na cidade que sempre que um jovem aventureiro alugava os animais de sua propriedade, ele fazia a seguinte advertência: Cuidado! Se a bruxa partir para lhe atacar, grite: “Valei-me meu cavalo, meu cachorro e minha lança”. Desejava uma boa viagem e um breve retorno.

Quando a velha bruxa sabia que o hóspede era condutor de alguns bens de valor, ela realizava uma artimanha infalível. Ela mandava que o viajante amarrasse seu cavalo, seu cachorro e sua lança, com um fio dos seus cabelos.

Altas horas da noite, quando estava calmo e o viajante no sono profundo pelo cansaço da viagem, ela entrava no quarto e atacava a sua vítima. Quando este gritava: “Valei-me, meu cavalo, meu cachorro e minha lança”, a bruxa gritava: “Engrossem, meus cabelos! Engrossem!”.

Os cabelos da bruxa engrossavam, matava o cavalo e o cachorro e impedia a ação da lança. Indefeso, o viajante era eliminado pela bruxa que roubava os seus pertences, escondia o cadáver e esperava as próximas vítimas. As ações da malvada bruxa se repetiram algumas vezes. Assim, o local ficou conhecido como o “Vai-não-torna”.

Mas todo leão tem o seu dia de tapete. Aconteceu que um rapaz, conhecedor das ações da velha malvada, foi muito mais esperto. Ao chegar na hospedaria e ao ser abordado pela bruxa, ele disse que ela lhe daria os fios de cabelos e ele mesmo amarraria os animais pois eles eram muito ferozes e poderiam causar mal a ela.

Ele foi até o local onde estavam o cavalo e o cachorro e, em lugar de laçar os animais, ele apenas pendurou os fios de cabelo nos pescoços dos mesmos. No quarto, ele fez o mesmo com a lança, pendurando o fio de cabelo da bruxa no cabo da rama.

Na hora exata, a malvada entrou no quarto e ao partir para o ataque, o rapaz gritou: “Valei-me, meu cavalo, meu cachorro e minha lança!”. A bruxa gritou: “Engrossem, meus cabelos! Engrossem!”. Ao engrossarem, os fios de cabelos deslizaram e caíram.

Os animais e a lança partiram contra a bruxa, deixando-a despedaçada. Assim, acabou o terror naquele lugarejo e a bruxa passou a ser apenas uma terrível lembrança para os que por lá passavam. O rapaz virou herói e recebeu muitas homenagens na cidade.

Para enfeitar a história, meu pai disse que recebeu de presente os dois animais e a lança do herói, que ficou seu grande amigo. Ai eu perguntei pelos animais e ele me respondeu:

- O cavalo eu dei para o Pai Tá e ele sempre vem nele, quando vem visitar a gente! O cachorro é o nosso que está lá no oitão, dormindo!
Eu perguntei: e a lança, pai? Ele respondeu:

“A lança eu dei pra tua mãe assar carne no fogão” Aí ele se virou para mãe e perguntou:

- Ô Docinha, cadê aquela lança que eu te dei de presente? Mãe chegou na porta enxugando as mãos no avental e disse:

- Nêgo! Tu ainda vai endoidar esse menino com essas tuas histórias malucas! E voltou a cuidar do jantar.

Mas criança sonha demais e guarda na memória os maiores absurdos contados pelos adultos e todas as vezes que o velho Pai Tá ia lá em casa montado no seu cavalo, eu ficava admirando aquele animal , como se fosse o verdadeiro herói que matou a bruxa do “Vai-não-torna”.

Esta foi uma das muitas histórias que meu pai me contou no meu tempo de criança. Ela está com uma nova redação, mas sem fugir da  originalidade dos fatos.

- Por Adalberto Pereira –

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