A CIDADE DO VAI-NÃO-TORNA
03 – Havia uma cidade onde as pessoas viviam muito bem e todos
desfrutavam de grandes riquezas. Era normal alguém fazer viagens em busca de
aventuras nas montanhas encantadas, como muitos chamavam pela sua beleza e seus
segredos históricos.
Mas para chegar àquelas montanhas os viajantes eram obrigados a passarem
por uma cidade onde havia uma única hospedaria. Diziam que a proprietária do
repouso dos viajantes, como era assim chamada, era uma velha bruxa, que só
fazia o mal.
Para fazer a viagem até as montanhas, era preciso um bom cavalo, um
cachorro esperto e uma lança resistente para o caso de aparecer algum animal
que colocasse em risco a vida do aventureiro viajante.
Havia um cidadão na cidade que sempre que um jovem aventureiro alugava
os animais de sua propriedade, ele fazia a seguinte advertência: Cuidado! Se a
bruxa partir para lhe atacar, grite: “Valei-me meu cavalo, meu cachorro e minha
lança”. Desejava uma boa viagem e um breve retorno.
Quando a velha bruxa sabia que o hóspede era condutor de alguns bens de
valor, ela realizava uma artimanha infalível. Ela mandava que o viajante
amarrasse seu cavalo, seu cachorro e sua lança, com um fio dos seus cabelos.
Altas horas da noite, quando estava calmo e o viajante no sono profundo
pelo cansaço da viagem, ela entrava no quarto e atacava a sua vítima. Quando
este gritava: “Valei-me, meu cavalo, meu cachorro e minha lança”, a bruxa
gritava: “Engrossem, meus cabelos! Engrossem!”.
Os cabelos da bruxa engrossavam, matava o cavalo e o cachorro e impedia
a ação da lança. Indefeso, o viajante era eliminado pela bruxa que roubava os
seus pertences, escondia o cadáver e esperava as próximas vítimas. As ações da
malvada bruxa se repetiram algumas vezes. Assim, o local ficou conhecido como o
“Vai-não-torna”.
Mas todo leão tem o seu dia de tapete. Aconteceu que um rapaz,
conhecedor das ações da velha malvada, foi muito mais esperto. Ao chegar na
hospedaria e ao ser abordado pela bruxa, ele disse que ela lhe daria os fios de
cabelos e ele mesmo amarraria os animais pois eles eram muito ferozes e
poderiam causar mal a ela.
Ele foi até o local onde estavam o cavalo e o cachorro e, em lugar de
laçar os animais, ele apenas pendurou os fios de cabelo nos pescoços dos
mesmos. No quarto, ele fez o mesmo com a lança, pendurando o fio de cabelo da
bruxa no cabo da rama.
Na hora exata, a malvada entrou no quarto e ao partir para o ataque, o
rapaz gritou: “Valei-me, meu cavalo, meu cachorro e minha lança!”. A bruxa
gritou: “Engrossem, meus cabelos! Engrossem!”. Ao engrossarem, os fios de
cabelos deslizaram e caíram.
Os animais e a lança partiram contra a bruxa, deixando-a despedaçada.
Assim, acabou o terror naquele lugarejo e a bruxa passou a ser apenas uma terrível
lembrança para os que por lá passavam. O rapaz virou herói e recebeu muitas
homenagens na cidade.
Para enfeitar a história, meu pai disse que recebeu de presente os dois
animais e a lança do herói, que ficou seu grande amigo. Ai eu perguntei pelos
animais e ele me respondeu:
- O cavalo eu dei para o Pai Tá e ele sempre vem nele, quando vem
visitar a gente! O cachorro é o nosso que está lá no oitão, dormindo!
Eu perguntei: e a lança, pai? Ele respondeu:
“A lança eu dei pra tua mãe assar carne no fogão” Aí ele se virou para
mãe e perguntou:
- Ô Docinha, cadê aquela lança que eu te dei de presente? Mãe chegou na
porta enxugando as mãos no avental e disse:
- Nêgo! Tu ainda vai endoidar esse menino com essas tuas histórias
malucas! E voltou a cuidar do jantar.
Mas criança sonha demais e guarda na memória os maiores absurdos
contados pelos adultos e todas as vezes que o velho Pai Tá ia lá em casa
montado no seu cavalo, eu ficava admirando aquele animal , como se fosse o
verdadeiro herói que matou a bruxa do “Vai-não-torna”.
Esta foi uma das muitas histórias que meu pai me contou no meu tempo de
criança. Ela está com uma nova redação, mas sem fugir da originalidade dos fatos.
- Por Adalberto Pereira –
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