A INGENUIDADE DA ZEFINHA
01 – Seu Pedro era um agricultor bastante conhecido na redondeza de onde
morava. Era também respeitado por não “levar desaforo pra casa”: empunhando um
facão ou uma foice, corria atrás de quem tentasse mexer com ele. Com ele,
trabalhavam seus dois filhos: Amaro e Anselmo.
Pedro sempre costumava guardar os produtos das colheitas, às vezes,
feijão, outras vezes milho, para os meses seguintes, sempre se prevenindo para
uma possível estiagem. Desta vez ele guardara dois sacos de feijão e dissera
para sua esposa, d. Josefa, a Zefinha como costumava chamar, que aquele feijão
era para o consumo de Janeiro.
A família de seu Padro era muito querida. D. Zefa era daquelas mulheres
que visitavam os doentes e nunca deixava de comparecer a um velório, sempre
levando palavras de conforto às pessoas. Seus filhos eram os craques do time da
roça. Mas um dia um fato inesperado aconteceu.
Todos ficaram abalados e tristes com a notícia da morte do Pedro que,
apesar de sua valentia e de seus momentos de brutalidade, era muito querido por
gostar de contar histórias nas noites enluaradas. Às vezes até ensaiava uma poesias
matutas, arrastando risadas dos presentes.
No velório, realizado na Capela do lugarejo, o padre Gualberto não
poupou elogios interesseiros ao defunto: - “Neste momento Pedro está sendo recebido
pelos anjos no céu. Era um homem bom e sempre colaborava com os festejos da nossa
Capela! Quebrava um banco? Lá estava o Pedro para consertar! Queimava uma
lâmpada? Lá estava o Pedro para substituir!”.
À proporção que o Padre falava, os presentes eram levados pela emoção.
Algumas senhoras de idade chegavam a soluçar levadas pelas palavras do padre
que, empolgado, continuava:
“Não chorem! Pedro está num lugar
de paz, cercado pelos anjos e abençoado pelas mãos de Deus!” E concluiu: “Vai
Pedro! Vai, meu irmão! Deus preparou um lugar bem melhor que este para você!”.
Fez o sinal da cruz, curvou-se uma, duas, três vezes diante do caixão, abraçou
a viúva e foi embora.
Sepultado o Pedro, a vida na roça continuou e os filhos do extinto
seguiram o mesmo ritmo do pai. Os dias passaram e d. Zefinha ainda nem se
afastara das saudosas lembranças do marido, quando ouviu alguém batendo palmas
na porta da frente de casa.
Viu que se tratava de um homem meio abatido, que lhe pedia um copo d’agua.
Do lado de fora, amarrados num pé de algaroba, os dois jumentos descansavam da
jornada e aproveitavam para saborear algumas vargens da árvore.
Generosa como sempre foi, d. Zefa mandou que o visitante entrasse e se
sentasse enquanto ela buscava a água do pote colocado no canto da parede da
sala de jantar. Depois de tomar o precioso líquido, o visitante deu um longo
suspiro e deixou escapar um sonoro: Ai, céu! Obrigado, Deus!
Ouvindo aquilo, d. Zefinha, ingênua como a maioria dos matutos da época,
perguntou: - O senhor vem do céu?
Notando que estava diante de uma pessoa sem muita noção das coisas
sérias, o “intruso” respondeu: - Sim, senhora! Eu moro lá! E aquele feijão é
pra vender?
E continua o animado diálogo:
Ela – Não senhor! Aquele feijão foi o Pedro, meu falecido marido, que
guardou para janeiro. Como é mesmo o seu nome?
Ele – Eu me chamo Januário, mas como nasci no mês de janeiro, todos me
conhecem como Seu Janeiro!
Ela – Que bom o senhor ter chegado, seu Janeiro! Pode levar o seu
feijão! Agora me diga, seu Janeiro, o senhor tem visto o Pedro lá pelo céu?
(enquanto pergunta, ela puxa um tamborete e muito interessada se senta
em frente ao visitante)
Ele (vendo uma espingarda encostada na parede da sala de jantar) – O Pedro ia bem mas entrou em uma contenda
numa compra de terra e está sendo ameaçado, coitado!
Ela – Eu sempre disse ao meu Pedoca que acabasse com aquele jeitão de
valente. Mas não tem nada não, leva a espingarda dele (e entregou a espingarda
ao vigarista). Leve também o facão e a foice dele! Ele pode precisar!
Ele – Com certeza, ele vai precisar, sim! Mas o problema é que ele
plantou um feijão e a safra não foi lá essa coisa e o pobre Pedro está devendo
o terreno e as sementes! Pobre amigo!
Ela (com os olhos cheios de lágrimas) – Tem nada não, seu Janeiro! (levantou-se,
foi lá dentro e voltou com um pacote na mão) – Tome, seu Janeiro, leve esse
dinheiro e dê pra ele pagar as contas.
Ele – Bem, minha senhora! O tempo tá passando e o xará do seu marido
pode fechar a porta e não me deixar entrar!
Ela (abraçando o charlatão) – Adeus, seu Janeiro! Dê lembranças ao meu
Pedoca e diga que a roça tá indo bem! Diga que ele deixe de valentia e pare com
a mania de comprar fiado!
FINAL DA CENA
Depois de carregar o jumento com os dois sacos de feijão e a espingarda,
enganchou o facão e a foice nos arreios
de um dos jumentos, meteu o dinheiro no bornal, montou no outro animal e saiu
em galope pela estrada poeirenta.
Cinco e meia da tarde! Os dois filhos da viúva Zefinha chegam em casa e
mortos de fome nem entram pela porta da frente, preferindo a entrada do oitão,
que dava acesso à sala de jantar.
Feliz da vida e achando que tinha feito um negócio maravilhoso, d. Zefinha,
esfregando as mãos de alegria, contou aos filhos sobre a visita de seu Janeiro.
Apavorado diante da ingenuidade da mãe, os dois pegaram os cavalos e saíram em
busca do vigarista.
A diferença era grande! Afinal, ele levava uma boa vantagem, pois há mais de três horas o malandro havia saído de
sua casa depois de aplicar golpe na ingênua Zefinha.
Desolados, voltaram para casa e
nada mais puderam fazer a não ser esconder da vizinhança a besteira que a mãe
fizera. Afinal, lá se foram dias e dias de trabalho árduo e perdido para um aventureiro qualquer.
Esta foi uma das muitas histórias que meu pai me contou no meu tempo de criança.
Ela está com uma nova redação, mas sem fugir da originalidade dos fatos.
- Por Adalberto Pereira –
-o-o-o-o-o-o-o-
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