quinta-feira, 9 de abril de 2020

HISTÓRIAS QUE MEU PAI ME CONTAVA - 2



O DESENCANTO DA PRINCESA

02 – Havia num certo reino uma princesa encantada. Seus pais já haviam tentado por diversas vezes desencanta-la. Foram muitas as tentativas, sem que nenhuma delas chegassem a um resultado positivo.

As coisas se complicaram ainda mais a partir do momento em que o rei estipulou um “presente de grego” a quem não tivesse sucesso na tentativa: teria a cabeça cortada e exposta para servir de exemplo aos aventureiros incompetentes.

Na redondeza do Palácio Real havia um senhor viúvo e pai de três filhos. Eram dois rapazes formosos, corpos atléticos, daqueles que despertam a atenção de qualquer mocinha das mais altas classes sociais. O outro, ao contrário, era de causar repulsa a qualquer ser vivente. Chamá-lo de horrível seria um grande elogio para ele.

Pensando que a beleza era fundamental para desencantar a princesa, os dois “dons Juan” comunicaram ao pai aa decisão tomada por ambos de tentar a incrível proeza, que já levara muitos jovens à morte. O pai ficou temeroso e ainda tentou afastar deles aquele sonho arriscado.

Estavam justamente discutindo o assunto quando o outro se aproximou e disse ao pai e aos irmãos que iria tentar desencantar a princesa. Espanto??? Bota espanto na história! Eles quase caem de costas diante de tamanha aberração. Ora, se o pai já achava impossível para os dois galãs, imaginem diante da ousadia daquele “monstrengo”!

Ninguém conseguiu mudar o caminhar da história e lá se foram os três. Os dois bonitões iam da frente para não misturar sua beleza aquilo que os seguia. Eram três frases pronunciadas pela voz da princesa encantada: 1 – Meus cabelos estão em chamas! 2 – Com que mexe? 3 – Merda pra todos!

A caminhada era silenciosa. De repente, o grito do monstrengo: - Irmãos, vejam o que eu achei! Venham depressa!

Os dois voltaram e, ao chegar, encontraram o irmão com três ovos de codorna. Revoltados, deram umas lapadas no coitado e seguiram em frente.

Mas adiante, outro grito: - Irmãos, venham ver o que eu achei! Venham, depressa!

Os dois ainda vacilaram um pouco, mas resolveram arriscar. Ficaram uma fera ao notar que se tratava de um pauzinho meio torto. Deram-lhe outras lapadas, ainda mais fortes e seguiram em frente.

Já se aproximavam do Palácio Real, quando um terceiro grito, agora bem mais forte, fez-se ouvir. Era mais uma vez o feioso irmão.

Agora, mais enraivecidos do que nas vezes anteriores, os dois voltaram e viram o irmão com um esterco de vaca nas mãos. Estava seco, mas não deixava de ser repugnante. Agora, mais enraivecidos, os dois quase levam o irmão a óbito.

Era chegado o momento de algum herói ou maluco, se apresentar para a quase impossível façanha. O locutor real pede silêncio e anuncia:

- Senhoras e senhores, como sabeis, sua majestade o Rei, oferece em casamento sua filha aquele que conseguir quebrar o seu encanto! Está lançado o desafio!

De repente, a surpresa, não só para o locutor (que quase engole o megafone) e para os irmãos, mas para toda aquela multidão de curiosos que se fazia presente ao Palácio.

Surge no palanque oficial, aquela coisa feia, descomunal. O silêncio foi tão grande que precisaram de quase uma hora para que todos se refizessem do susto. Foi feita a contagem para que a voz da princesa surgisse: três, dois, um... expectativa geral, e finalmente a voz:

- A voz da princesa: MEUS CABELOS ESTÃO EM CHAMAS
- O rapaz: – SÃO PARA FRITAR MEUS DOIS OVINHOS!
- A voz da princesa: COM QUE MEXE?
- O rapaz: - COM O MEU PAUZINHO TORTO!
- A voz da princesa: MERDA PRA TODOS!
- O rapaz:- AQUI ESTÁ UM PEDAÇO BEM GRANDE!

De repente, surge na janela a figura da princesa. Era uma jovem linda, cabelos loiros e longos, olhos azuis. A coisa mais linda que as mãos de Deus poderia criar.

Os clarins soaram e a princesa caiu nos braços do seu amado, que nada mais era do que o rejeitado  monstrengo irmão dos galãs, agora perplexos e emudecidos.

Imediatamente, foi marcado pelo rei o dia do casamento e o jovem vencedor foi conduzido a um lugar secreto de onde saiu dias depois totalmente transformado.

Uma carruagem bastante confortável perfumada com flores reais e brilhosa como as estrelas do céu, parava em frente à casa do noive, de onde levou o pai e os irmãos orgulhosos, mas vencidos por uma realidade inesperada.

Mas os irmãos foram beneficiados com bons empregos e até casaram com as empregadas do Palácio, enquanto o pai se tornou namorado da cozinheira-chefe do Rei. Não sei se chegaram a se casar.

A festa durou três dias com muita música, bebidas caras e um bolo da causar inveja. 
Meu pai disse que havia levado um pedaço do bolo para mim, mas estava chovendo bastante e ele escorregou e o bolo caiu na lama! Eu acreditei e até cheguei a chorar, acreditam?

Esta foi uma das muitas histórias que meu pai me contou no meu tempo de criança. Ela está com uma nova redação, mas sem fugir da  originalidade dos fatos.

- Por Adalberto Pereira –

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