O DESENCANTO DA PRINCESA
02 – Havia num certo reino uma princesa encantada. Seus pais já haviam
tentado por diversas vezes desencanta-la. Foram muitas as tentativas, sem que
nenhuma delas chegassem a um resultado positivo.
As coisas se complicaram ainda mais a partir do momento em que o rei
estipulou um “presente de grego” a quem não tivesse sucesso na tentativa: teria
a cabeça cortada e exposta para servir de exemplo aos aventureiros
incompetentes.
Na redondeza do Palácio Real havia um senhor viúvo e pai de três filhos.
Eram dois rapazes formosos, corpos atléticos, daqueles que despertam a atenção
de qualquer mocinha das mais altas classes sociais. O outro, ao contrário, era
de causar repulsa a qualquer ser vivente. Chamá-lo de horrível seria um grande
elogio para ele.
Pensando que a beleza era fundamental para desencantar a princesa, os
dois “dons Juan” comunicaram ao pai aa decisão tomada por ambos de tentar a
incrível proeza, que já levara muitos jovens à morte. O pai ficou temeroso e
ainda tentou afastar deles aquele sonho arriscado.
Estavam justamente discutindo o assunto quando o outro se aproximou e
disse ao pai e aos irmãos que iria tentar desencantar a princesa. Espanto???
Bota espanto na história! Eles quase caem de costas diante de tamanha
aberração. Ora, se o pai já achava impossível para os dois galãs, imaginem
diante da ousadia daquele “monstrengo”!
Ninguém conseguiu mudar o caminhar da história e lá se foram os três. Os
dois bonitões iam da frente para não misturar sua beleza aquilo que os seguia.
Eram três frases pronunciadas pela voz da princesa encantada: 1 – Meus cabelos
estão em chamas! 2 – Com que mexe? 3 – Merda pra todos!
A caminhada era silenciosa. De repente, o grito do monstrengo: - Irmãos,
vejam o que eu achei! Venham depressa!
Os dois voltaram e, ao chegar, encontraram o irmão com três ovos de
codorna. Revoltados, deram umas lapadas no coitado e seguiram em frente.
Mas adiante, outro grito: - Irmãos, venham ver o que eu achei! Venham,
depressa!
Os dois ainda vacilaram um pouco, mas resolveram arriscar. Ficaram uma fera ao notar que se tratava de um
pauzinho meio torto. Deram-lhe outras lapadas, ainda mais fortes e seguiram em
frente.
Já se aproximavam do Palácio Real, quando um terceiro grito, agora bem
mais forte, fez-se ouvir. Era mais uma vez o feioso irmão.
Agora, mais enraivecidos do que nas vezes anteriores, os dois voltaram e
viram o irmão com um esterco de vaca nas mãos. Estava seco, mas não deixava de
ser repugnante. Agora, mais enraivecidos, os dois quase levam o irmão a óbito.
Era chegado o momento de algum herói ou maluco, se apresentar para a
quase impossível façanha. O locutor real pede silêncio e anuncia:
- Senhoras e senhores, como sabeis, sua majestade o Rei, oferece em
casamento sua filha aquele que conseguir quebrar o seu encanto! Está lançado o
desafio!
De repente, a surpresa, não só para o locutor (que quase engole o
megafone) e para os irmãos, mas para toda aquela multidão de curiosos que se
fazia presente ao Palácio.
Surge no palanque oficial, aquela coisa feia, descomunal. O silêncio foi
tão grande que precisaram de quase uma hora para que todos se refizessem do
susto. Foi feita a contagem para que a voz da princesa surgisse: três, dois,
um... expectativa geral, e finalmente a voz:
- A voz da princesa: MEUS CABELOS ESTÃO EM CHAMAS
- O rapaz: – SÃO PARA FRITAR MEUS DOIS OVINHOS!
- A voz da princesa: COM QUE MEXE?
- O rapaz: - COM O MEU PAUZINHO TORTO!
- A voz da princesa: MERDA PRA TODOS!
- O rapaz:- AQUI ESTÁ UM PEDAÇO BEM GRANDE!
De repente, surge na janela a figura da princesa. Era uma jovem linda,
cabelos loiros e longos, olhos azuis. A coisa mais linda que as mãos de Deus
poderia criar.
Os clarins soaram e a princesa caiu nos braços do seu amado, que nada
mais era do que o rejeitado monstrengo
irmão dos galãs, agora perplexos e emudecidos.
Imediatamente, foi marcado pelo rei o dia do casamento e o jovem
vencedor foi conduzido a um lugar secreto de onde saiu dias depois totalmente
transformado.
Uma carruagem bastante confortável perfumada com flores reais e brilhosa
como as estrelas do céu, parava em frente à casa do noive, de onde levou o pai
e os irmãos orgulhosos, mas vencidos por uma realidade inesperada.
Mas os irmãos foram beneficiados com bons empregos e até casaram com as
empregadas do Palácio, enquanto o pai se tornou namorado da cozinheira-chefe do
Rei. Não sei se chegaram a se casar.
A festa durou três dias com muita música, bebidas caras e um bolo da
causar inveja.
Meu pai disse que havia levado um pedaço do bolo para mim, mas
estava chovendo bastante e ele escorregou e o bolo caiu na lama! Eu acreditei e
até cheguei a chorar, acreditam?
Esta foi uma das muitas histórias que meu pai me contou no meu tempo de
criança. Ela está com uma nova redação, mas sem fugir da originalidade dos fatos.
- Por Adalberto Pereira –
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