A BELEZA DA FEIURA
O jornalista acordou ao som
do despertador de toque tão extravagante que era capaz de acordar quase toda a
vizinhança. Ele precisava chegar cedo à redação para fazer o editorial do dia.
O toque do despertador lançou-o fora da quentura do lençol e colocou um fim a
um sono bastante agradável.
Levantou-se, esfregou os
olhos, abriu a boca e permaneceu sentado na cama por alguns minutos. Parecia que
o sono ainda não o largara. Aproveitou para pensar no tema para o seu
editorial. Mas cadê a inspiração? Precisava de um tema que causasse impacto.
Isso para ele não era problema, pois era o que sabia fazer e muito bem. Por
alguns instantes tentou colocar o cérebro para funcionar, mas nada dava certo.
O que fazer, então?
Ainda meio cambaleante e quase vencido pela
desilusão dirigiu-se ao banheiro. Diante do espelho, achou-se horrível. Era o que faltava! Como se não bastasse a
falta de inspiração, agora se achava um verdadeiro “farrapo humano”. Como estou
terrível! Assusta-me este rosto de múmia mal tratada! - Murmurou ele, como se
estivesse diante de um estranho indesejável.
Bem! Não adianta procurar
inspiração onde só existe figuras fantasmagóricas: ele e sua feiura. Resolveu
esquecer pelo menos por um momento, enquanto se preparava para o novo dia.
Tomou um banho, se deliciou com um gostoso café da manhã e saiu para o emprego,
sempre acompanhado pela sensação de “múmia ambulante”.
A caminho do jornal, ainda
levado pelos pensamentos lúgubres, ouviu uma voz: “Ôi, lindo! Bom dia!”. Era
uma voz feminina. Meio desconfiado, olhou para os lados e notou que só havia
ali dois personagens: ele e a dona da voz misteriosa, que confirmou a sua presença: “É
você mesmo, lindão!”. Ele fez um sorriso meio tímido, acenou para a jovem
desconhecida e seguiu o seu destino.
E agora? Estaria ele
sonhando? Justamente no momento em que se achava um “espantalho”, aparece uma
garota, vinda não sabia de onde, para chamá-lo
de lindo? Mais preocupado do que antes, nem notou que já chegara na redação do
jornal.
Na entrada, a saudação da recepcionista: “Bom dia, Juvenal! Pelo jeito,
sua noite foi bastante abençoada! Você nunca esteve tão bem!”. Mais um motivo
de preocupação.
Teve vontade de voltar e
perguntar o que se aproveitava naquele corpo estraçalhado pelos sentimentos
negativos.
Entrou na sala e, ao passar pelo chefe de redação, outra inesperada
surpresa: “Bom dia, Juvenal, pelo jeito, o editorial de hoje vai ser um
“estouro”“! Com essa cara de felicidade, só pode estar bastante inspirado! Já
tem o tema do editorial?
Ele olhou para o chefe com
um olhar de indiferença, deu um longo suspiro e respondeu: Sim! Acabo de
receber uma mensagem divina! O tema da edição de hoje será “A BELEZA DA
FEIURA”, chefe! Juvenal nunca recebeu tantos elogios pelo editorial! Até hoje,
ele não entendeu como uma feiura pode se
revestir de tanta beleza.
(Por Adalberto Pereira)
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