sexta-feira, 19 de julho de 2019

UM GIRO PELO MUNDO DA POESIA


             O BERRANTE DO VAQUEIRO

(Versos em sete sílabas)
                                    I
Quando amanhecia o dia eu fazia a oração,
Tomava café com pão e com muita alegria,
Da cozinha eu saia e corria pro terreiro.
As galinhas do poleiro vinham se alimentar
E paravam com o tocar  do berrante do vaqueiro.
                                  II
Minha mãe quando me via vinha me abençoar
E depois de me abraçar dizia: filho, bom dia,
Era assim que eu sentia amor puro e verdadeiro.
Meu pai era o conselheiro sempre pronto a me educar,
E gostava de ouvir tocar o berrante do vaqueiro.
                                III
Eu gostava de ficar na calçada do oitão,
Descascando o fruta-pão que servia pro jantar.
Era lindo o cantar do galo, o rei no terreiro,
Parecia um seresteiro sua amada a despertar.
Até ouvir o tocar do berrante do vaqueiro.
                               IV
E quando a noite chegava, sob a luz do lampião,
Era feita a oração e Deus nos abençoava
De manhã pai invocava o Deus bom e verdadeiro,
Depois deixava dinheiro para a prestação pagar.
Mas tinha que ouvir tocar o berrante do vaqueiro.
                              V
Era assim a nossa vida de paz, amor e fartura,
Sem sentir a amargura por muita gente sentida.
No começo da descida pertinho do juazeiro,
Tinha um lindo cajueiro referência do lugar,
De onde se ouvia tocar o berrante do vaqueiro.
                             VI
Carros de boi na estrada com seu gemido feroz,
E o vaqueiro mostrava a voz açoitando a boiada.
O vento da madrugada balançava o cajueiro,
Que ficava no terreiro onde o galo ia cantar,
Parecendo acompanhar o berrante do vaqueiro.
                            VII
Bem cedinho mãe saía para cuidar do roçado,
Na saia dela, colado, eu apressado seguia.
Arrancava melancia e tinha tudo sem dinheiro.
De janeiro a janeiro nem via o tempo passar,
Mas se  ouvia tocar o berrante do vaqueiro.
                           VIII
Às cinco horas da tarde eu via meu pai chegar
Cansado, sem reclamar, e sem mostrar muito alarde,
Mostrava não ser covarde, mas um homem verdadeiro.
Seguia para o banheiro para o corpo refrescar,
Enquanto  ouvia tocar o berrante do vaqueiro.
                            IX
Reunidos com alegria lá na sala de jantar
Eu ouvia meu pai orar, ele a Deus agradecia
Por tudo que recebia e também pelo dinheiro.
Me abraçavam primeiro, depois iam se deitar
Mas tinham que escutar  o berrante do vaqueiro.

(Por Adalberto Pereira)


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